sábado, 16 de abril de 2011

Saudades

Trancar o dedo numa porta dói.

Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói.

Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói

morder a língua, dói cólica (...)

Mas o que mais dói é a saudade.

Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância.

Saudade de um filho que estuda fora. Saudade do gosto de uma fruta que não se

encontra mais.

Saudade do pai que morreu, do amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de

uma cidade.

Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa. Doem essas saudades

todas.

Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama.

Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência

consentida.

Você podia ficar na sala e ela no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você

podia ir para o dentista e ela para a faculdade, mas sabiam-se onde.

Você podia ficar o dia sem vê-la, ela o dia sem vê-lo, mas sabiam-se amanhã.

Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor, ao outro sobra uma

saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é basicamente não saber. Não saber mais se ela continua fungando num

ambiente mais frio. Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa

daquela alergia. Não saber se ela ainda usa aquela saia. Não saber se ele foi na

consulta com o dermatologista como prometeu.

Não saber se ela tem comido bem por causa daquela mania de estar sempre

ocupada;

se ele tem assistido às aulas de inglês, se aprendeu a entrar na Internet e

encontrar a página do Diário Oficial; se ela aprendeu a estacionar entre dois

carros; se ele continua preferindo Malzbier; se ela continua preferindo Margarita;

se ela continua sorrindo com aqueles olhinhos apertados;

se ela continua dançando daquele jeitinho enlouquecedor; se ela continua

cantando tão bem; se ela continua detestando o Mc Donald's; Se ele continua

amando; Se ela continua a chorar até nas comédias. Saudade é não saber

mesmo!

Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos; Não saber como

encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento;

Não saber como frear as lágrimas diante de uma música;

Não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber se ela está com outro, e ao mesmo tempo querer.

É não saber se ele está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos

por isso...

É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela.

Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim doer; Saudade é

isso que senti enquanto estive escrevendo e o que você, provavelmente, está

sentindo agora depois que acabou de ler...


(autor: Miguel Falabella).

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